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Foi Assim há tempos Atrás...
Recordo-me bem. Findava 1950. Viajara de ônibus a Osório. Dali à Vila Maquine na carroceria de um caminhão de carga e chegara, com a boca da noite, á Sanga Funda, em uma carroça colonial puxada por dois burricos...
A exaustão pialou-me, e o cansaço atirou meu corpo em uma tarimba.
Senti então o trepidar dos bondes, as buzinas roucas nas esquinas; o apitar das fábricas; rodei por encrespadas coxilhas e por horizontes fechados; matei a sede na guarapa dos canaviais: ouvi “causos-marinheiros” da Lagoa dos Barros; enxerguei o colar alvo do mar e pescador a falar, cantando; colori os olhos na fartura das lavouras da Encosta da Serra e provei o vento salgado que amenizava a fornalha daquele 31 de dezembro.
A noite inteira se sucedeu imagens como estas. Bem distintas daquelas que habitualmente vê um Homem da Fronteira, como eu.
Mas o silêncio do alvorecer, embalado pelo sussurro da Sanga Funda e do canto da mata, quebrou-se. Era uma musica estranha, com sabor de cantochão, que se misturava ao perfume silvestre do meu colchão de pasto e, o aroma gostoso de um travesseiro de marcela.
Vozes ásperas como de quem trabalha na enxada, mas afiadas como batidas de araponga, cantavam assim.
AGORA MESMO CHEGUEMO
NA BEIRA DE SEU TERRERO
PARA TOCÁ E CANTÁ
LICENÇA PEÇO PREMERO.
Tentei me refazer do sonho, quando senti que a noite me roubara um ano...
ACORDAI SE ESTA DORMINDO
NESTE SONO TAO PROFUNDO
NÓS ANDAMOS FESTEJANDO
ANO-NOVO NESTE MUNDO.
Assim ouvi, pela primeira vez, um autêntico Terno. Fiquei fascinado pela beleza rústica da maneira de cantar e o profundo sentimento cristão, que brotava dos corações daqueles simples do Litoral, a cada verso que lhes vinha à boca.
Em minha infância, já ouvira, de minha avó, algumas quadrinhas. E encontrara referências vagas na literatura regional. Mas, ali estava eu diante de um autentico Reses...
Daquele 1º de Janeiro de 1951, comecei a “tirar” este TERNO DE REIS, que vos apresento...
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