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TERNO DE REIS NO RIO GRANDE DO SUL.
O nosso homem do campo desconhecia as comemorações de Natal à maneira como hoje são usuais nas cidades, com uma árvore enfeitada de neve e de presentes ansiosamente esperados, com um Papai Noel atemorizando os guris travessos ou fazendo elogios ao bom filho. Isto não quer dizer que no campo os Homens tenham se esquecido das mensagens cristãs de Natal, da entrada do Ano Novo e do Dia de Reis. Se o dia 1º de Janeiro é festivamente assinalado por churrascos e “ressacas”, não menos vibrante são os festejos de Natal, com os “Ternos de Reis” – grupos musicais que anunciam, de rancho em rancho, de casa em casa, o nascimento do Salvador.
O objetivo desta visita varia de um Terno para outro: alguns visam unicamente louvar a memória de Jesus Menino; outros Ternos visam propiciar aos cantadores uma doce retribuição ao desgaste de suas cordas vocais, através de fartos comes e bebes que os donos das casas nunca se esquecem de oferecer. Finalmente, há aqueles que, oprimidos pelas necessidades matérias que muitas vezes afligem nossos trabalhadores rurais, saem “pedindo ou tirando reis”, na certeza de que ao menos no campo, ainda não se esqueceram de todo, as lições de fraternidade que o Cristo legou aos nossos Homens de bem.
No transcurso de sua “missão”, um Terno desenvolve uma lição lítero-poética, que se fundamenta nas “Estações”, isto é, na temática que a Bíblia do Novo Testamento deixou, referente ao dia 25 (antevéspera e a própria data); de 25 ao dia notadamente do Ano Novo; Dia 1º de janeiro, deste à data de Reis.
Se eventualmente o Terno não pode “tirar os Reses” durante o período das “5 Estações ”, o ato se estenderá para além de 6 de janeiro, quando então, passa a chamar-se Terno temporão, ou seja, fora do período clássico, porém recebendo o mesmo respeito e carinho, no seu cantar.
No caso, as quadrinhas do tema central se desenvolvem atinente à religiosidade posterior à adoração de Melchior, Baltazar e Gaspar, especialmente relativo às leis e atitudes do Rei Herodes.
Ainda, por vezes, surge a “Aporfia de Reses”, quando então, por ocasião de um encontro ocasional de dois grupos, os “Mestres” se desafiam em versos de improviso. Cada “Guia” (mestre) questiona e interroga o outro “adversário”, de seus conhecimentos sobre a vida de Cristo. Às vezes, esse momento dura horas, até que um reconheça maior sabedoria religiosa do ouro “Mestre”.
Mais dois momentos curiosos, numa jornada de Terno podem acontecer: “Barbara-de-Farelo” e a “Prisão “, afora o Terno de Atiradores da Zona colonial alemã.
No primeiro caso, dá-se quando o Terno, embora seguindo o ritual de “visita” (chegada – entrada – louvação – agradecimento – despedida), o proprietário da casa visitada, não os recebe (por motivos diversos). Então o “Mestre” fica cantando só para as estrelas...
JÁ cantamos Santos Reis
Pela nossa tradição
Este barba-de-farelo
É ateu ou é pagão”
Este Terno cantou agora
E torno a recantá
Este barba-de-farelo
Não tem nada pra nos dá”
No caso da “Prisão”, um Terno está cantando, dentro de uma morada, e outro grupo chega, estrategicamente “prende-o”, não permitindo que este continue a sua louvação.
Prende-se-lhe” os instrumentos, as ofertas, o comer, o beber, etc. Ao final, o “perdão” de Cristo fala mais alto, e os dois Ternos voltam a cantar cada um seguindo seu rumo em paz, glorificando o menino Jesus.
No “Terno de Atiradores”, roncam as “reiunas” de encher pela boca, com salvas de pólvora seca, fazendo tremer o terreiro, sob o comando do “spruch”, e que registrei em câmara super 8, em cores...
Os Ternos foram cantados em grande parte do Rio Grande do Sul, com maior ou menor intensidade, neste ou naquele rincão, sendo que numa pequena faixa da fronteira com o Uruguai e Argentina essa manifestação é desconhecida, ou raros cantadores faziam seu “peditório”, quase somente nas cidades. Hoje, ainda vamos encontrar este acontecimento pelas regiões ribeirinhas do Jacuí, Taquari, Sinos, Gravataí, que formam o grande estuário do Guaíba, bem como a área lacustre dos Patos. Todavia, é numa boa região do Litoral Norte Oceânico onde esta tradição é mais pura, mais viva. Por mim foi elaborado um mapa, no qual pode-se observar que essa manifestação parece ter sido mais intensa nas regiões do rio Grande do Sul onde a colonização açorita esteve mais presente.
Entre os muitos fatores que contribuíram para o quase desaparecimento dos Ternos de Reis em nosso Estado, destacam-se: a máquina do progresso, trazendo enfeites e missangas coloridas; o surgimento de “novas modas” pelos meios de comunicação, especialmente Rádio e TV; determinadas medidas policias, que perduraram por mais de uma década, por todo o País, o chamado ESTADO NOVO, e que, em muitas regiões, faziam confundir “tradição” com atentado à “ordem e Progresso” da nossa bandeira, só permitindo a glorificação do nascimento de Cristo pelo Terno, após o pagamento de uma licença, que era conseguida em uma “delegacia” situada a dezenas de quilômetros. Caso contrário, o “Terno ia tirar reses no xilindró”.
Estas “leis”, aplicadas pelos discutidos “inspetores de quarteirões” – “zeladores da tranqüilidade e sossego público” – fizeram com que, em rincões outrora tão vivamente festejados, os Ternos atravessassem um período de letargia, residindo mais na memória saudosa de alguns velinhos dos “bons tempos”.
Deve ser lembrada também a atitude de incompreensão de certos clérigos de outrora, vindos de regiões coloniais de formação ítalo-germânica, e sem raízes brasileiras.
Felizmente, este aspecto vem se modificando, e as próprias resoluções do último Concílio Ecumênico recomendam em sua Constituição “Sacrosanctum Concilium” da Sagrada Liturgia, entre outra coisa, que “o canto popular religioso seja inteligentemente incentivado, de modo que os fies possam cantar nos pios e sagrados exercícios e nas próprias ações litúrgicas, de acordo com as normas e prescrições das rubricas”; “quando se encontrarem em algumas regiões, principalmente das missões, povos que tem uma tradição musical própria, a qual desempenha importante função em sua vida religiosa e social, deve-se tomar em conta esta estimação da música, e dar-lhe um lugar conveniente, tanto para lhes formar o senso, quanto para adaptar o culto à sua mentalidade, de acordo com os artigos 39 e 40. |